“Os Traficantes” é um filme de passos em frente

“Os Traficantes” é uma história verídica bem mais difícil de contar do que possa parecer. Na década pós 11 de setembro, dois jovens americanos perceberam que a lei de armas da administração George W. Bush tinha tantos buracos que bastava ter um computador para comprar e vender armas na Internet. No auge da guerra do Iraque, uma alteração na legislação tornou o negócio das armas ainda mais surreal, dando a possibilidade a qualquer empresa de fechar os maiores contratos dos EUA.

A premissa perfeita para um argumento sólido mas descontraído de Stephen Chin, Todd Phillips (o realizador) e Jason Smilovic, que se basearam no artigo “Arms and the Dudes”, da revista “Rolling Stone”. O filme estreou esta quinta-feira, 18 de agosto, em Portugal.

“Os Traficantes” tem a banda sonora mais badass do ano.”

Os dois jovens traficantes são Efraim Diveroli e David Packouz, amigos de infância que se reencontram por acaso num funeral e que começam a trabalhar juntos. Depois de várias negociatas obscuras, a sua empresa AEY (cujas iniciais não significam nada) ganha um contrato para fornecer 100 milhões de balas para metralhadoras AK-47. O problema é que eles não têm 100 milhões de balas e único sítio que as vende, na Albânia, não é exatamente o que parece. O negócio milionário acaba por ser resolvido por um tipo ainda mais vigarista do que eles: Henry Girard, interpretado por Bradley Cooper.

Este é um filme de passos em frente. O primeiro passo largo é dado pelo realizador, Todd Phillips, que parece ter abandonado o registo infantil de comédias pouco sustentadas — como a trilogia “A Ressaca” e “Starsky & Hutch” — para se lançar num estilo claramente inspirado por Martin Scorsese. Sobretudo nas manobras aceleradas da narrativa e da edição de “O Lobo de Wall Street”.

“Hill é um verdadeiro case study da forma como Hollywood consegue redirecionar uma carreira.”

Depois, há um passo mais curto mas sólido de Miles Teller, que arrisca numa personagem potencialmente perigosa. Teller é David Packouz, um massagista de vinte e tal anos que tinha o sonho de vender lençóis de linho e que estava prestes a ser pai. Perigosa, porque David tinha tudo para se transformar num estereótipo moralista que se deixa seduzir pelo dinheiro fácil. E é precisamente isso que acontece, mas com o menos de cliché possível. Miles Teller é um dos melhores atores da sua geração. Já o tinha provado em “Aqui e Agora” e, claro, no brilhante “Whiplash — Nos Limites”. Desta vez, ele consegue dar uma dimensão tão convincente a um confuso jovem adulto que nos faz fingir que não sabemos exatamente o que vai acontecer no final. Claro que acontece exatamente o que estávamos a imaginar. Mas com Teller, o importante é mesmo a viagem até lá.

Por fim, chega Jonah Hill (Efraim Diveroli), que não dá nenhum passo em frente, mas antes enterra os dois pés na areia para consolidar o enorme ator em que se transformou. Hill é um verdadeiro case study da forma como Hollywood consegue redirecionar uma carreira. Longe vão os tempos de “Super Baldas” ou das dezenas de figuras secundárias que interpretou em comédias adolescentes. Se “Moneyball — Jogada de Risco” foi o grande twist e “O Lobo de Wall Street” a afirmação do seu currículo, “Os Traficantes” é, sem dúvida, a consolidação.Efraim é um judeu capaz de se moldar na pessoa certa para conseguir os seus objetivos em qualquer circunstância. Este talento de camaleão encontra o reflexo perfeito na interpretação de Jonah Hill, que tem o equilíbrio entre a tensão e o humor necessários para nos fazer desprezar e adorar a mesma pessoa.

Neste momento Hill domina qualquer género do cinema. As sucessivas referências a “Scarface” ao longo do filme não são inocentes. Elas acontecem porque foram reais — o verdadeiro Efraim tinha mesmo um poster do filme na parede do escritório em Miami — mas também porque era importante para Todd Phillips traçar um paralelismo entre esta personagem e Tony Montana, o mítico traficante de droga interpretado por Al Pacino na obra prima de Brian de Palma, de 1983. No final, nenhuma das duas figuras é capaz de renunciar à sua natureza conflituosa. Efraim e Tony mergulham numa espiral de solidão e desconfiança que acaba por transformá-los nos seus maiores inimigos. Do lado de cá das câmaras, a conclusão é que Jonah nunca será Al. Mas o inverso também é verdade. Com os defeitos e qualidades que isso tem.

Só mais uma coisa: “Os Traficantes” tem a banda sonora mais badass do ano.

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