O sapatinho de avó chegou (e eu estou feliz)

Nas minhas prateleiras de sapatos figuram sapatos com saltos tão altos que quase têm direito a entrada direta no Guiness. São altos, são lindos, elevam-me a pose e o ego, uma pessoa enfia-os nos pés e sente-se capaz de dominar o mundo, de resolver conflitos internacionais, de pôr toda a gente na ordem. São perfeitos. Tirando, claro, o ligeiríssimo problema de me assassinarem os pés a cada passo, numa morte lenta e agonizante. A coluna também se queixa, mas uma pessoa finge que não ouve. E eu concluo, com pesar, que isto só pode ser da idade. Não caminho para nova, reconheço, e a passos largos para os 36 já não encaro uma passeata por Lisboa em saltos de 12 centímetros com a mesma determinação de outrora.

Uns saltos ajudam, mas não são tudo no que toca a atitude e sensualidade

Deixei-me disso. Agora são muitas as manhãs em que me visto e remato o look com uns stiletto incríveis – que, estupidamente, continuo a comprar -, para logo os trocar pelo que tiver de mais parecido com umas pantufas. Porque basta pensar que vou ter de descer a Avenida ou subir o Chiado para me passarem imediatamente os devaneios estilísticos. É então que os stiletto vão para o banco sem sequer terem pisado o relvado, numa substituição estratégica por uns ténis ou umas sabrinas. É que o avançar da idade pode não ser positivo em todas as suas vertentes, mas, regra geral, torna-nos mais espertas. E sem paciência para fretes. E dá-nos a segurança de saber que uns saltos ajudam, mas que não são tudo no que toca a atitude e sensualidade. Porque podemos ter isso tudo com uns centímetros a menos. A moda dá uma ajuda e vai relançando tendências que só podem ter sido pensadas por mulheres fartas de verem os pés massacrados em sapatos do demónio. Os ténis, por exemplo, vieram para ficar, adaptados aos mais variados estilos – do mais desportivo ao mais clássico – e eu só posso elevar as mãozinhas ao céu e agradecer, porque não há moda mais confortável. E este ano temos o quê?

Sapatos de salto largo e médio, que nos dão um bocadinho de altura e a confiança de sabermos que não ficarão encravados na linda e fatídica calçada portuguesa – inimiga número 1 dos saltos altos e das tentativas de manter alguma dignidade a andar. Pois é, aquilo a que andámos uma vida inteira a chamar de “sapatinho da avó” chega agora às lojas com o rótulo de “tendência”. E quero ver quem é que vai dizer que não a um sapato que reúne o melhor de dois mundos: (alguma) altura e conforto. Pela parte que me toca não me fiz de rogada e já juntei dois exemplares à minha coleção de sapatos. Porque, ainda não sendo avó (cruzes-credo-bate-na-madeira), já vos disse que também não caminho para nova.

Se estão comigo nesta luta, se os vossos pés pedem tréguas ao fim de décadas empinados, carreguem na imagem e espreitem alguns dos modelos que já estão à vossa espera.

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