“Doutor Estranho” demorou 30 anos a chegar ao cinema

A produção do filme que acaba de chegar aos cinemas começou em 1986.

O neurocirurgião Stephen Strange apareceu pela primeira vez no número 110 da revista de comics “Strange Tales”, em julho de 1963. Depois de um acidente que o tornou incapaz de operar, ele parte em busca de uma forma de se curar. Pelo caminho, ganha poderes.

Passariam mais de 20 anos até que alguém se lembrasse de fazer uma adaptação para o cinema e 30 até que o resultado final aparecesse — acontece esta quinta-feira, 27 de outubro, com a estreia de “Doutor Estranho” nos cinemas portugueses.

Em 1986 o projeto estava supostamente em pré-produção com um argumento de Bob Gale. Por razões desconhecidas nunca avançou e três anos depois a história já estava a ser reescrita por Alex Cox e Stan Lee. Aí, doutor Estranho viajava até à quarta dimensão, antes de acabar na Ilha da Páscoa, onde enfrentava Dormammu. Estava tudo pronto para que a Regency Films começasse as filmagens, mas os filmes da produtora eram distribuídos pela Warner Bros., que estava, na altura, numa batalha com a Marvel por causa de merchandising. Conclusão: o projeto não passou dali.

A terceira tentativa aconteceu em dezembro de 1992, quando Wes Craven assinou um contrato para escrever e realizar com a Savoy Pictures a fazer a distribuição para todo o mundo. A estreia estava prevista para 1994 ou 1995, mas por essa altura ainda nada estava concluído, apenas uma nova versão do texto assinada por David S. Goyer. Dois anos depois, nova reviravolta: os direitos de “Doutor Estranho” foram comprados pela Columbia Pictures e Jeff Welch foi contratado para escrever a história.

Em 2000, a produtora decidiu desistir do filme, não dando explicações sobre a opção. Por essa altura já Jeff Welch tinha sido substituído por Michael France. Em 2001 a Columbia livrou-se definitivamente do projeto, vendendo os direitos à Dimension Films. Nesta trapalhada de trocas, vendas, textos escritos e reescritos, houve um regresso, o de David S. Goyer. Surpresa das surpresas, também esta colaboração não durou. Em 2001 a produção foi vendida à Miramax Films e um ano mais tarde Goyer bateu com a porta.

Em março de 2003, a Miramar garantiu: o filme chegaria às salas em 2005. Junho de 2004 e nem uma página escrita. Mais um ano, mais uma venda. Em abril de 2005, os direitos foram parar às mãos da Paramount Pictures, que pretendia avançar com uma parceria com a Marvel Studios — um projeto que não devia custar mais do que 150 milhões de euros.

Fast forward até 2009. Só então é que a Marvel deu sinais de querer avançar e contratou um grupo de criativos para desenvolver a história de “Doutor Estranho”, mas também de “A Pantera Negra” e “Punho de Ferro”. Em 2011, durante a promoção de outro filme, Patrick Dempsey (de “Anatomia de Grey”), mostrou vontade de ser Stephen Strange, mas não houve qualquer feedback. Contudo, os estúdios juraram que o projeto estava a avançar em janeiro de 2013. E depois em maio. E depois em novembro.

A revista “The Hollywood Reporter” publicou em fevereiro de 2014 uma lista com os realizadores que estavam na corrida para o trabalho, como Nikolaj Arcel, Dean Israelite e Jonathan Levine. No entanto, em junho foi Scott Derrickson o nome anunciado para o cargo. Para reescrever (pela centésima vez?) o argumento surgiu Jon Spaihts.

Apareceram então os atores desejados para protagonista: Jared Leto, Tom Hardy e Benedict Cumberbatch. Em julho todos foram ultrapassados por Joaquin Phoenix, anunciado como ator principal. As negociações terminaram de repente em outubro e o ator explicou que o trabalho tinha “demasiados requisitos que iam contra os instintos [que ele tinha] para a personagem”. Saiu Phoenix, entraram Ryan Gosling, Matthew McConaughey e Colin Farrell na lista de opções. Mas em dezembro surgiu a confirmação oficial: Benedict Cumberbatch como “Doutor Estranho”.

“Ele era alguém que queríamos e em quem estávamos muito interessados há muito tempo”, revelou nessa altura Jon Spaihts a propósito do ator.

Mas fechar o contrato com ele não foi assim tão fácil. Com diversos outros projetos agendados, Cumberbatch não tinha disponibilidade para aceitar o papel e os produtores consideraram outras opções, acabando sempre por voltar ao protagonista de “A Teoria de Tudo”. A solução foi reagendar as datas da produção. O filme estava então nas mãos de Scott Derrickson, que contratou C. Robert Cargill para escrever com Spaihts.

Resolvido o problema da realização, do argumento e do protagonista, começaram a alinhar-se os nomes para os restantes papéis. Chiwetel Ejiofor, Tilda Swinton, Mads Mikkelsen e Rachel McAdams.

A produção arrancou no Nepal a 4 de novembro de 2015, antes de passar pelo Reino Unido, pelos Estados Unidos, mais precisamente em Nova Iorque, e China. Em abril de 2016 terminavam as filmagens e “Doutor Estranho” avançava para a edição. Pouco mais de seis meses depois, o filme estreia finalmente nos cinemas de todo o mundo, depois de uma jornada de 30 anos que parecia amaldiçoada. Ainda assim, o esforço parece ter compensado, já que as primeiras críticas têm sido maioritariamente positivas.

Já este mês, outubro, Scott Derrickson anunciou planos para uma sequela. “Adoro a personagem, adoro as possibilidades visuais e conheço os livros tão bem. O primeiro filme é só o topo do iceberg, há tantos progressos que podem ser feitos”, explicou ao site “Comic Book Movie”. Daqui a 30 anos, talvez?

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