“As pessoas encontram o Silo – Espaço Cultural como se fosse uma preciosidade”

Nuno Malheiro Sarmento, curador do Silo-Espaço Cultural do NorteShopping, abriu as portas da exposição e revela os segredos que fazem deste um espaço cultural de sucesso único em Portugal.

Parece um cliché, mas não é. O NorteShopping é um Centro que tem uma oferta tão variada para os seus clientes que até obra de arte originais tem, para comprar ou simplesmente contemplar, inseridas numa exposição oferecida por um local singular – o Silo-Espaço Cultural.

Nuno Malheiro Sarmento é galerista e o responsável pela curadoria das exposições deste espaço artístico no NorteShopping, e fala de um lugar que apresenta desafios diferentes dos que se encontram numa galeria de rua. Um dos seus objetivos é divulgar o trabalho de novos artistas e oferecer uma programação que vem complementar um percurso ou inserir um novo hábito nos visitantes do centro.

Quais são os principais desafios de ser o curador de um espaço tão característico como o Silo – pelo facto de se encontrar inserido num centro comercial, que é claramente diferente de uma galeria de rua, como as existentes em Miguel Bombarda?
O maior desafio é estar fora de um certo circuito de arte convencional, que normalmente faz com que as coisas se apoiem umas às outras, pelo facto de estarem próximas ou porque há zonas de artistas, de ateliers, de universidades e zonas de galerias ou de museus. Aqui, estar fora desse circuito é um grande desafio.

Um curador tem de se posicionar perante o tipo de geografia para que está a atuar, o tipo de projeto, as expectativas das pessoas e das instituições

E há ainda a relação com um público muito diverso que pode vir à procura de arte ou não veio à procura de arte e a oferta de programação complementa a visita que fez ou a volta que estava a dar ou até insere um novo hábito na vida de determinada pessoa, que veio aqui fazer as suas compras e nem acompanhava muito os museus e exposições. O espaço tem a potencialidade de, pela facilidade e proximidade, no quotidiano da pessoa inserir um novo hábito – que é acompanhar exposições. Tenho tido essa experiência com pessoas que vêm cá e agora sabem que está programado mensalmente. Veem um cartaz diferente e entram cá.

Um curador tem de se posicionar perante o tipo de geografia para que está a atuar, o tipo de projeto, as expectativas das pessoas e das instituições e um projeto que eu desenvolva aqui é diferente daquele que eu faria em muitos outros sítios.

O que mudaria?
Teria de conhecer a realidade do local para onde estivesse a programar, perceber como era comunidade e o que interessa àquela comunidade e à instituição que está a promover aquela programação e qual a finalidade que tem.

Em galerias consagradas, o interesse é seguir o novo passo do artista e aqui vê-se uma coisa completamente nova, deslocada.

Nesse sentido, o que procura fazer aqui?
Aqui, a forma de posicionar esta programação é procurar trabalhar com novos artistas, divulgar o seu trabalho e expô-los aqui – o que faz com haja sempre uma novidade. Em galerias consagradas, o interesse é seguir o novo passo do artista e aqui vê-se uma coisa completamente nova, deslocada. Há gente que acha muita piada a isto. Nunca viu o artista nem nunca ouviu o nome, mas chega cá e fica preso a um novo percurso.

Como uma espécie de arte fora do sítio?
Sim, é uma arte fora do sítio que tem de ter outros princípios, como dar a conhecer novos artistas e em termos de programação temos de dar a noção às pessoas que a arte é diversa e não há apenas quadros sobre paisagens, não há quadros só figurativos ou só coisas abstratas, por exemplo.

Aqui, a maior aposta tem sido em pintura.
Sim, mas também já tenho tido escultura e instalação. Por o espaço ter dois pisos e pelo enquadramento que tem, procuro ter numa sala – normalmente no piso superior –, uma exposição mais convencional, onde as pessoas percebam melhor os objetos e, em baixo, como a sala tem a possibilidade de ter um grande controlo de luz, tem mais instalação, ou seja, ter coisas que são mais imateriais e com vários meios.

Quanto ao tipo de público, costuma ter turistas que vêm cá de propósito pela galeria ou apenas recebem os visitantes normais do centro comercial?
Tirando algumas alturas em que, mesmo no shopping, se percebe que há uma percentagem maior de turistas, como nesta altura de férias, o público estrangeiro vem mais para conhecer o espaço, ou seja, são pessoas mais ligadas à arquitetura – ou às artes que estão a ver o que há na cidade e a fazer uma prospeção para ver no que as galerias têm apostado e passam também aqui.

Dentro desses, há também o público de arquitetura que vem dentro do roteiro do Souto Moura e quer ver obras de arquitetos centrais aqui do Norte, já que temos a sorte de os ter. Também passam cá, às vezes, faculdades inteiras.

Ou seja, os turistas estão essencialmente interessadas no espaço.
Os estrangeiros sim, porque normalmente os nomes [dos artistas] que tenho cá não são consagrados. Não são artistas que, nesta altura, estejam a fazer ponte com o circuito internacional. Já o arquiteto, sim. E esta peça [Silo-Espaço Cultural] é muito singular e o facto de estar ligado ao shopping e esse não ser um projeto do Souto Moura é uma peça que está relativamente perdida e que as pessoas encontram o Silo-Espaço Cultural como se fosse uma preciosidade. Vêm cá ver uma coisa pequenina, quase uma escultura.

Este é um espaço dificílimo e diferente dos espaços ortogonais e branquinhos.

Como são selecionadas as obras? É o Nuno que as vai selecionando com o artista?
Sim, normalmente os artistas enviam currículos e são artistas que eu procuro e de quem venho a acompanhar o percurso desde a faculdade, onde continuo a dar um salto e acompanho o que se passa junto dos professores, como o que se está a fazer e a desenvolver e depois acompanho o artista.

Há uma fase em que lhe proponho dentro do trabalho que está a fazer, e pergunto “o que gostarias de fazer?”, começamos a conversar e convido-os a vir conhecer o espaço, porque este é um espaço dificílimo e diferente dos espaços ortogonais e branquinhos. Aqui, temos paredes concavas e para quem tem pinturas de grande formato pode assustar um bocadinho.

Depois, veem a altura deste pé direito e pensam que as coisas vão ficar pequeninas e se perder no espaço. Mediante isto, vou conversando com eles e vão desenhando a exposição, definimos os títulos e vou dando uns saltos ao atelier durante o desenvolvimento para ver em que fase está o trabalho.

Portanto, as obras são sempre desenvolvidas especificamente para a exposição.
Sim, sim. Normalmente são desenvolvidas especificamente para a exposição e para o espaço que sugere um determinado tipo de obras, especialmente lá no piso de baixo, que recebe instalações. Raras vezes, como acontece em muitos sítios, o artista tem um núcleo de três ou quatro peças e, à volta dessas, desenvolve outras. Geralmente, aqui, são sempre originais.

É possível comprar as obras expostas?
É possível comprar as obras. Têm preço e normalmente está afixado. O espaço pode funcionar apenas como um local que tem uma exposição ou como exposição e venda. Temos meios para funcionar como uma galeria normal.

No fundo é isso que distingue uma galeria de um museu – o facto de numa galeria podermos adquirir uma obra de arte e num museu apenas comtemplá-la?
Sim.

Existe alguma curiosidade especial sobre o Silo que possa partilhar?
O espaço tem muitas curiosidades. A primeira dela é o facto de, por ser aqui no Porto, receber algumas visitas do próprio Souto Moura, como do engenheiro dele, ou do dono da empresa que construiu os tijolos para ver como isto está, se ainda está impecável, etc..

Segundo me disseram, quando foi lançada a obra foi pedido uma estimativa para fazer os tijolos e davam 50 e tal anos para os fazer numa empresa só. Então, juntaram duas ou três empresas e fizeram os tijolos em menos tempo. Isto é tijolo burro manual e tem de ser feito um a um.

Sei que também existe uma razão para aquela abertura existente entre tijolos.
Exatamente. É por uma questão de acústica. É uma parede perfurada para o som ser absorvido. Também é forrada a serapilheira a seguir a este tijolo, ou seja, o tijolo está a 20 centímetros do betão sobre uma serapilheira. E esta parede central de betão [aponta para o muro que se estende na divisória entre os dois pisos, por onde seguem as escadas] parece que aqui está a sobrar espaço, mas lá em baixo não pousa no chão e deixa a sugestão que a parede está suspensa. A parede também tem uma cofragem de betão sobre madeira, onde agrafaram plásticos para quando se vertesse o betão ficasse riscado como está.

Também vi que existem umas moedas em escudos na parede que divide os pisos. De quanto, 25 escudos?
Tem umas moedas de cinquenta escudos que cobrem as tampas da estrutura que prende a cofragem, para tapar os buracos. Na parte da frente da parede está a cara da moeda e nas costas da parede está a coroa.

Existe alguma razão para ser de 50 escudos?
Não, mas tinham de tapar estes buracos da estrutura da cofragem e iam colocar umas tampas de metal que eram do tamanho de uma moeda de 50 escudos e cada uma delas custava precisamente 50 escudos. Então, o arquiteto teve a ideia de usar a moeda de 50 escudos. Na altura, o dinheiro ainda se encontrava em circulação (em 1998) e, por isso, as moedas têm um furo. Teve mesmo de se pedir a autorização do Banco de Portugal.

Quem são os principais agentes que processam a montagem de uma exposição desde o atelier do artista às paredes da galeria?
Há o artista, o curador e o papel do crítico ou de alguém mais teórico que acompanha a exposição. Não é um artista, mas alguém que pensa em arte. Aqui, no Silo, pelo menos, os agentes culturais são esses. Para determinada exposição, ou eu conheço críticos de arte que conheçam o trabalho daquele artista ou o artista já tem gente que vai acompanhando o seu trabalho.

Já que esse crítico segue determinado trabalho e o aprecia, não existe uma incompatibilidade, nesse caso?
Aqui, a crítica é mais no sentido de fazer uma recensão sobre o trabalho. É diferente de uma crítica feita em jornais. São textos quase filosóficos onde se desenvolvem as problemáticas do trabalho.

O que mais lhe dá prazer nesta área das artes?
Para além da proximidade às peças, e o facto de adquirir mais ferramentas para descodificar o que as peças querem dizer e comunicar com elas, o que mais me dá prazer é ter esta aproximação aos artistas, de ver o processo criativo, como as coisas vão surgindo, qual é o fio em que o criador pega para desenvolver a peça, quais são os interesses, a sua forma de olhar para o mundo, a sua técnica.

Viver de arte no atual panorama artístico em Portugal é um desafio. O que requer na sua opinião?
Na minha opinião, o nosso país tem uma dimensão muito pequena e, em termos de mentalidade, tem um desenvolvimento diferente de outros países. Aqui, a arte passa rapidamente para um plano quase de luxo. Quando as coisas apertam, a arte perde lugar e passa para vigésimo quinto lugar. Quer dizer, a arte não é um bem de primeira necessidade, e com a oscilação perde logo lugar.

Para os novos artistas é uma coisa de muita resistência, mas é como a questão da pobreza, porque em Portugal já não há pobreza de pés descalços, ou seja, ela existe, mas noutro limiar e com a arte é a mesma coisa. O artista se quer impor o seu trabalho já não vai passar o que passaram os outros artistas nos anos 1920 ou 1930. Já não é nesse grau, mas é muito complicado. A resistência de um jovem artista é saber que o trabalho não lhe dá logo subsistência, mas requer a sua entrega total para ele se conseguir impor. A arte, numa primeira fase, poderá apenas lhe pagar os próximos projetos, e exige essa entrega total para continuar e se impor. Não é um sprint, mas é uma corrida de fundo.

Que conselho deixaria aos jovens artistas que se iniciam nesta profissão?
O conselho fundamental é não irem por modas, porque elas ficam no tempo e passam. Devem seguir aquilo que acreditam e terem coerência com o trabalho que estão a desenvolver e esse trabalho deve estar ligado à vida, senão perde lugar. E é importante ter essa noção que não devem ter essa corrida de viver logo da arte, mas que com as primeiras obras podem suportar os próximos projetos até conseguirem dar o salto.

Há alguma coisa que queira acrescentar?
Sim. Já passaram por cá muitos artistas que saltaram para outros patamares.

O Silo já criou algum artista?
Sim, já bastantes artistas que passaram por aqui entraram para o mercado da arte, para junto de artistas consagrados. E muita da credibilidade em termos comerciais está na consistência que as coisas têm. As pessoas entram cá e não sentem que estão a ser gozadas ou que o trabalho não tem interesse. Desenvolvemos sempre um texto para a folha de sala, com um crítico.

Neste caso [exposição atual], fui eu que escrevi o texto, porque é uma exposição coletiva e é difícil de encontrar um crítico. As pessoas veem que as coisas não são feitas ao acaso, ou seja, que o artista não atirou tinta para lá. Em termos comerciais, a consistência constrói-se por aí, porque as pessoas compram uma obra a preço de entrada e quando o artista salta para outro patamar, fixa-se outro preço que está acreditado pelo meio da arte de forma mais efetiva.

Publicação
11 de Outubro de 2016
Categorias
Cultura
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